Adaptação brasileira de Cardenio é auto-irônica

Beth Néspoli
Published on Friday, May 29, 2009
Source: O Estado de São Paulo
Folias cumpriu à risca dever de transpor a peça para a realidade cultural

Uma vez que quem conta um conto aumenta um ponto, a notícia chegou assim aos meios teatrais: pesquisador de Harvard encontrou um fragmento de Cardenio, peça perdida de Shakespeare, de 1613, e está convidando grupos de 20 cidades do mundo inteiro para criar um espetáculo a partir desse fragmento. No Brasil, o escolhido é o Folias, que já ensaia sua montagem de Cardenio, sob direção de Marco Antonio Rodrigues, para estrear no dia 20.

Nem tudo é invenção nessa história. Como se pode ler abaixo, há registros da estreia de uma peça chamada Cardenio no Globe Theatre, no dia 20 de junho de 1613, escrita a quatro mãos por William Shakespeare e seu jovem assistente John Fletcher. Ao que tudo indica, o manuscrito se perdeu antes da primeira compilação das obras do bardo, em 1623. Em 1727, Lewis Theobald teria encontrado o original e o adaptado no espetáculo Dupla Falsidade.

Esse último serviu de base para um projeto do doutor e pesquisador da Universidade de Harvard Stephen Jay Greenblatt. Em parceria com o dramaturgo norte-americano Charles Mee, ele criou nova adaptação de Cardenio. E, com apoio de uma fundação, também um projeto que prevê montagens em vários países. "A proposta é que cada grupo se aproprie do texto e o adapte à sua cultura", diz o diretor do Folias. Greenblatt virá ao Brasil para a estreia.

"A estrutura do texto que recebemos, a adaptação de Greenblatt, é a da peça dentro da peça. Há uma cerimônia de casamento no campo e os pais do noivo trazem de presente para a festa uma peça perdida de Shakespeare, para ser representada para os convidados", diz Rodrigues. O jogo de espelhamento comum nas comédias de Shakespeare se faz presente: os noivos reconhecem a si mesmos no casal da suposta peça de Shakespeare que representam, e isso os leva a mudar seu destino.

"Ficamos sabendo desse projeto por Pedro Schwarcz, ator do elenco de Querô (peça do Plínio Marcos encenada no Folias)", diz Rodrigues. A julgar pela leitura do texto e pelos dez minutos de ensaio permitidos à reportagem do Estado, os artistas do Folias não se fizeram de rogados no que diz respeito à transposição cultural. O tom irônico aparece já no prólogo, no inglês propositalmente tosco do ator Val Pires, cujo personagem é um serviçal, mas pode ser também o tal pesquisador de Havard no jogo de dupla identidade que perpassa todo e espetáculo. A festa de casamento foi transferida para a Serra da Cantareira, mas permaneceram do original, nas frases dos personagens, os vinhedos e olivais da região italiana da Umbria.

O contraponto cômico se estende aos paralelos entre a dificuldade de encontrar o local da festa e à localização do teatro, no centro degradado da cidade. Nem mesmo Greenblatt escapou do humor do grupo (leia no trecho ao lado), cujos atores não perderam a oportunidade de rir de si mesmos, por meio da crítica à precariedade da atividade teatral no Brasil. Significativamente, os pais do noivo pretedem gravar um piloto para a TV. "E esperam ganhar mais dinheiro de Havard com isso."

Por que aceitar tal convite? "Estamos vindo de duas montagens bastante difíceis, pesadas, Oresteia e Querô. E há meses preparamos o próximo trabalho, Êxodo, cujo tema é o indivíduo exilado dentro de seu próprio território", explica Rodrigues. "Esse convite representa um respiro para o grupo, a possibilidade de brincar com uma comédia romântica." A proposta era uma leitura dramática. "Recebemos U$ 25 mil; valor insuficiente para uma encenação, mas achamos que não valia a pena todo o trabalho da adaptação para uma leitura apenas. Vamos botar no palco."

O longo caminho percorrido pelo texto até chegar à cena paulistana

1605 - Edição do livro Don Quixote de la Mancha, de Cervantes. No capítulo 24, intitulado Em que Prossegue a Aventura da Serra Morena, Quixote encontra Cardenio que conta como perdeu sua amada Lucinda ao pedir ao amigo Dom Fernando que testasse sua fidelidade.

1612 - Don Quixote é traduzido para o idioma inglês.

1613 - No dia 20 de maio estreia a peça Cardenio, assinada por Shakespeare e seu jovem assistente John Fletcher. Há registro de mais uma apresentação, no dia 9 de julho. No mesmo ano há um incêndio no Globe Theatre. A peça não é publicada na primeira compilação das obras do bardo, em 1623. O manuscrito é dado como perdido.

1653 - Humprhrey Moseley registrou os direitos do texto A História de Cardenio, cujos autores seriam Mr. Fletcher e Shakespeare. Acredita-se que tivesse em mãos o manuscrito, porém esse jamais foi publicado.

1728 - Theobald Lewis afirma ter em mãos o manuscrito de Cardenio, que ele adapta "ao século 18" no espetáculo Double Falsehood, or, The Distressed Lovers (Dupla Falsidade ou O Amante Indigente). Diz ter entregue o original à biblioteca do Covent Garden Theatre.

108 - Incêndio destrói a bibliotecado Covent Garden.

2004/2005 - O titular de literatura da Universidade de Harvard Stephen Greenblatt e o dramaturgo norte-americano Charles Mee reescrevem Cardenio a partir de uma triangulação entre o original de Quixote, a adaptação Dupla Falsidade e o elementos recorrentes na dramaturgia de Shakespeare.

2007 - Projeto de Greenblatt propõe a "apropriação" da obra Cardenio para realização de leituras dramáticas ou até encenações por 20 grupos de diferentes cidades, entre elas Zagreb, Calcutá, Madri e Yokohama.

2008 - O Folias é convidado a participar do projeto. Fernando Paz traduz o texto e Reinaldo Maia assina a adaptação que será dirigida por Marco Antonio Rodrigues e estreia no dia 20.