Olhar Estrangeiro - Harvard na favela Cantinho do Céu

Mônica Bergamo
Published on Thursday, March 5, 2009
Source: Folha de São Paulo

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A estrutura de alvenaria e ferro dos barracos da favela Cantinho do Céu, na zona sul, impressiona os 13 mestrandos em arquitetura da Universidade Harvard, para quem a organização popular e a urbanização da periferia paulistana são "coisas de Primeiro Mundo". Eles estão na cidade pra visitar favelas como parte do programa de pós-graduação da instituição americana.

Alguns já estiveram em Nairóbi (Quênia) e Mumbai (Índia), onde viram barracos de madeira com piso de terra, paredes de papelão e teto de plástico, sem água e luz. "Isso aqui é, de longe, muito mais civilizado", diz o aluno Andrew Tenbrink. "Em Bangladesh não tem nada parecido. Essa estrutura pode ser exportada", completa Thomas Kraubitz.

"Na Índia, o banheiro é nas ruas e a água é roubada de vazamentos dos canos provocados pelos moradores. As favelas brasileiras são feitas de tijolo e concreto. Ninguém consegue tirá-los daqui", afirma a mestranda Rina Salvi.

No meio da visita, num beco de lama e esgoto a céu aberto, um caminhão das Casas Bahia passa escoltado por dois seguranças armados e com coletes à prova de balas. "Eles pagam os eletrodomésticos em 84 vezes", ensina Byron Stigge, professor de Harvard. Lily Huang, uma das alunas, vê uma placa em português pendurada na sacada de um barraco: "Vende-se um terreno nesta rua". Por quanto? "R$ 5.500", diz a dona. "Acho que ela está cobrando mais caro porque sou estrangeira", desconfia.

"Mesmo morando aqui, essa gente é tão feliz", diz a mestranda Megan Wright.
Todos bolam perguntas que devem fazer aos moradores. "Como eles brincam o Carnaval no Cantinho do Céu? As favelas de São Paulo têm escolas de samba?
Com que frequência vocês saem da favela? Pagam impostos? Votam? Será que têm certidão de propriedade das casas?".

O professor Christian Werthmann orienta: "Não tirem foto sem a permissão da pessoa". "Por quê?", quis saber a aluna Melissa Guerrero. "Eles podem ser traficantes e podem não querer. Se estivéssemos numa área segura, deixaria vocês sozinhos. Mas, por causa do perigo, todo mundo tem de ficar junto. Não quero que ninguém fique para trás".