Para o historiador, a decisão de permitir a continuidade de instituições "grandes demais para quebrar" vai contra um dos benefícios das crisesfinanceiras: o fim de modelos que não funcionam e a criação e transformação de novos caminhos, bem-sucedidos. O professor de Harvard afirma que a crise pode levar a uma aceleração de um processo, que já vem acontecendo, de declínio dos Estados Unidos e ascensão da China como nova potência. "Seria perfeitamente familiar, do ponto de vista histórico", diz. Em uma ou duas décadas, os PIBs dos dois serão equivalentes, aposta. O livro, que figurou na lista de mais vendidos do "New York Times", será lançado no Brasil nesta semana. [A Ascensao Do Dinheiro A- A Historia Financeira Do Mundo, Editora Planeta] Leia abaixo a entrevista concedida por Ferguson à Folha, por telefone.
FOLHA - Em uma palestra sobre seu livro, o senhor disse que acabou a "era daalavancagem". Em que era estamos entrando agora?
NIALL FERGUSON - Temo cada vez mais que estejamos entrando na TerceiraDepressão, não tão severa quanto a de 1929-33, mas provavelmente tão longaquanto a de 1873-1878. Temos pela frente um período de crescimento baixo namaior economia do mundo, os EUA, e também um ou dois anos de deflação emmuitas economias.
FOLHA - Olhando historicamente, existe alguma diferença entre essa TerceiraGrande Depressão e as anteriores, para a população?
NIALL FERGUSON - Uma das grandes diferenças é que os atuais sistemas debem-estar social e de apoio aos desempregados são muito melhores que osanteriores. Os governos tiveram um papel muito mais ativo na condução daeconomia, então vimos ações extraordinárias dos bancos centrais para injetarliquidez no sistema -e também enormes déficits dos governos enquanto tentamimpulsionar a economia. Isso vai ser diferente e é por isso que não estamosvendo um colapso severo como o dos anos 30. Mas não dá para conseguir tudo.Estamos começando a ver os limites das respostas monetárias e keynesianas aesta crise.
FOLHA - O senhor fala em "destruição criativa". Da quebra dessas empresas,vamos ter um novo tipo de economia. Que nova economia vai emergir dessadepressão?
FERGUSON - Há duas coisas diferentes. Primeiro, vai ser uma economia mundialem que países como China, Índia e, claro, o Brasil terão um papel muitomaior, com os EUA, a Europa e o Japão menos dominantes. O segundo pontoimportante é que as economias desenvolvidas, particularmente os EUA, nãoserão capazes de reavivar o antigo modelo de securitização [em que dívidassão aglutinadas, transformadas em títulos e vendidas como investimento], debancos de investimento e de crédito ao consumidor. O que vamos ver nos EUA etambém na Europa é um retorno a um modelo financeiro mais antiquado. Digoisso com alguma hesitação, porque neste momento os governos desses paísesestão falando em novas regulações que parecem mirar em reviver essesdinossauros e mantê-los vivos. Em outras palavras, medidas estão sendotomadas para impulsionar instituições que eram vistas como "grandes demaispara quebrar". E eu concordo com os que dizem que, se algo é grande demaispara quebrar, é grande demais mesmo, e provavelmente não deveria existir.Mas a tendência da nova regulação é a de manter esses dinossauros vivos, oque vai criar mais problemas. O que mais precisamos neste momento é umretorno a instituições financeiras menores e menos vulneráveis, mas o quevamos pegar é um tipo de megassuperbanco nacionalizado.
FOLHA - Então, nesse caso, o curso natural da história não está sendorespeitado e pode ser a semente de uma nova crise mais para a frente?FERGUSON - O perigo de intervir desse modo é acabar com um tipo de "décadaperdida", no estilo japonês, em escala global. Minha esperança é que serãotomadas medidas para quebrar esses gigantes perigosos, como o Citigroup e oBank of America. Se essas instituições forem divididas e houver novasinstituições, aí pode haver razões para otimismo. Senão, as perspectivas sãobastante ruins.FOLHA - Seu livro vai até a origem do dinheiro. Sempre é feita a comparaçãoda economia de agora com a da década de 30, mas, sob um ponto de vista maisamplo, com que outros pontos da história a atual era pode ser comparada?FERGUSON - Há muitos paralelos. Parte do objetivo do livro é mostrar como ahistória financeira explica a geopolítica. Pense no declínio dos impériosportuguês e espanhol, que nos 1600 pareciam os protagonistas da economiaglobal. O declínio da Espanha foi claramente financeiro, porque adisponibilidade de prata do Novo Mundo teve o efeito de minar a saúdeinstitucional do império espanhol e abrir o caminho para novas potênciasfinanceiras. Primeiro a Holanda, e depois, claro, a Inglaterra. A França eraum império poderoso no século 18, mas, financeiramente, um império fraco,que em última análise caiu exatamente por isso -a Marinha britânica eramuito maior, porque os franceses não tinham um mercado de "bonds", nãotinham a capacidade de se financiar naquela escala. No século 20, é o ReinoUnido que está em problemas, como consequência de dívida e baixocrescimento, especialmente depois de 1945. Então seria perfeitamentefamiliar, de um ponto de vista histórico, se essa crise financeira levasse auma aceleração da mudança dos Estados Unidos para a China. Nós já vimos nosúltimos dez anos que a liderança parece estar mudando em direção à China.Embora isso leve tempo e seja imprevisível -já que a China pode sempreentrar em dificuldades-, é razoável dizer que em 10 ou 20 anos os PIBs daChina e dos EUA não serão diferentes.
FOLHA - O senhor cria a "Chimérica" no seu livro, o que é isso?
FERGUSON - Meu argumento é que, para entender a economia mundial, énecessário entender a relação entre a China e a América [EUA]. A Chinaexportadora, a América importadora. A China poupadora, a América gastadora.Essa relação esteve no centro da economia global nos últimos dez anos, e ointeressante é perguntar se a crise levará ao fim da "Chimérica". A Chinatem reclamado cada vez mais do modo como os EUA lidam com a crise.
FOLHA - A China tem falado constantemente numa alternativa ao dólar.FERGUSON - Isso tem se tornado tão frequente de Pequim que parece que elesrealmente querem dizer isso. Eles têm US$ 1,5 trilhão em títulos em dólar eficam muito nervosos com os EUA tomando medidas que podem enfraquecer odólar e, assim, suas reservas. Isso pode parecer o fim desse casamento.Quando cunhei essa expressão, pensei na palavra quimera, uma criaturamítica. Não acho que seja uma relação estável.
FOLHA - É possível ver uma trajetória linear na evolução econômica do mundoou é algo errático? Estamos indo em alguma direção ou não?
FERGUSON - O paralelo que eu traçaria é um que me bateu quando eu estava naBolívia, observando os Andes. Olhando as linhas das montanhas, dei-me contade que estava olhando algo parecido com os índices do mercado financeiro, ospicos, as quedas bruscas, os pontos agudos. E acho que essa analogia éválida. Na economia, as coisas quebram, no sentido de seleção natural,existe a sobrevivência, inovações ou mutações acontecem, novas instituiçõessão criadas. São as bem-sucedidas que sobrevivem e se multiplicam. Adiferença é que, ao contrário do mundo natural, temos intervenção dereguladores e legisladores, o que previne o processo natural de acontecer.Uma das maiores diferenças entre evolução natural e evolução financeira éque essa pode ser interrompida, os dinossauros podem ser salvos da extinção,e os mamíferos, impedidos de herdar a Terra. É um pouco isso o que estáacontecendo, com instituições que deveriam ter quebrado, mas interviemospara mantê-las vivas.
FOLHA - Mas um dos argumentos é que, se quebrassem, o sofrimento para apopulação seria enorme, como nos anos 30. Não faz sentido?
FERGUSON - Isso é correto, e o Fed [banco central dos EUA] fez um bomtrabalho em evitar a catástrofe. Se os bancos tivessem quebrado em setembropassado, estaríamos numa situação muito pior. Mas existem diferenças entremedidas temporárias e reformas de longo prazo. As medidas iniciais foramtomadas para prevenir o pânico. Mas, uma vez que isso foi feito, temos dedizer: depois do que você fez, não há a menor possibilidade de continuarcomo antes. Quando vimos o Goldman Sachs, que recebeu todo tipo debenefício, voltando aos negócios como sempre, os bancos sobreviventessimplesmente voltando ao que eram antes, tudo isso é muito frustrante. OGoldman vai ter em 2009 o mesmo lucro de 2007, ou maior. É difícil acreditarque os contribuintes colocaram seus recursos para prevenir uma depressão,não para que os bancos tivessem um ótimo ano de 2009.
FOLHA - Isso pode levar a reações mais agressivas da população?
FERGUSON - Isso é parte da dificuldade do público de distinguir entremilhares e milhões. Quando você tenta explicar para as pessoas o que estáacontecendo, é complicado, porque, para elas, é difícil distinguir 1 milhãode 1 bilhão. Um dos objetivos do meu livro é encorajar o "alfabetismofinanceiro", para que o leitor comum não se sinta intimidado quando lerpalavras como derivativos, trilhão. A ideia de que os mestres do universo deWall Street precisam nos explicar o que está acontecendo é absurda. Estámuito claro que a crise financeira foi causada por um grosseiro erro decálculo e de administração pelas pessoas que geriam os bancos. E o fato deque muitos deles continuam a comandar os bancos é profundamente irritante.