Dados recentes mostram uma clara redução na concentração da renda: a dos
mais pobres vem crescendo em ritmo maior do que a dos mais ricos. Mas a
realidade mostra que está aumentando a desigualdade no acesso aos serviços
públicos de saúde, educação, habitação, segurança. Mesmo melhorando para os
pobres, estão ainda melhores para os ricos.
Uma criança pobre vai à escola – o que é uma melhora, pois seus pais não iam
–, mas os ricos vão à escola, ficam mais tempo nela, dispõem de equipamentos
modernos, aprendem idiomas, fazem estágio no exterior, fazem pós-graduação –
o que seus pais também não tinham. O mesmo vale para a saúde, para o
conforto na habitação, para o transporte em geral. O resultado é que, mesmo
com menor desigualdade na renda, os pobres enfrentam hoje uma brecha maior
na qualidade de vida, em relação aos ricos.
Isso nos permite uma reflexão sobre o duplo significado de "redução da
pobreza": por um lado, redução nas necessidades essenciais dos pobres,
especialmente comida, por outro, redução no número de pobres. Mesmo
reconhecendo o valor da redução da tragédia em que vivem os pobres, o
propósito deve ser reduzir o número dos que vivem na pobreza, não só a
dimensão da penúria que sofrem.
A primeira opção é obtida pela "rede" de proteção, mantendo os pobres em
situação de pobreza protegida, a segunda é a opção da "escada", oferecida
para que os pobres saltem de uma situação de exclusão para a de inclusão
social. Nosso desafio está em evoluir da necessidade de rede de proteção
para a oferta de uma escada de ascensão.
A única forma de trocar a rede pela escada é retomar o conceito de
Bolsa-Escola. No seu início, a Bolsa-Escola tinha essa perspectiva. Era
Bolsa (uma rede baseada na transferência de renda) e era Escola (uma escada
baseada na educação). O mundo tem cerca de 20 milhões de famílias protegidas
pela rede de proteção do tipo Bolsa-Família, mas elas não têm acesso à
educação de qualidade. A bolsa protege, a escola eleva. Por isso, a mudança
da política de rede para a política de escada deve se basear na garantia de
educação com a mesma qualidade para todos. Só isso vai permitir enfrentar
com seriedade, ética e dignidade o problema da pobreza.
Na semana passada, em dois debates nos EUA – na Universidade do Texas,
Austin, e na Universidade de Harvard, Boston – pude perceber como a idéia da
Bolsa-Escola se espalhou pelo mundo, chamada genericamente de programas de
Transferência Condicionada de Renda. É gratificante ver a ideia consolidada
internacionalmente, com resultados positivos e sua origem reconhecida. E, ao
mesmo tempo, saber que o programa tem sido decisivo para a criação de uma
Rede de Proteção Social para atender a população pobre nos diversos países
do continente latino-americano. Todos os apresentadores de diversos países
mostraram resultados positivos na redução da pobreza no continente.
Os seminários nas universidades americanas mostraram que a Bolsa-Escola se
consolidou, mas sofreu mudanças que a descaracterizaram. Essas mudanças se
concentraram na transferência de renda, contentando-se com a busca de uma
rede de proteção, abandonando a busca de uma escada de ascensão. É possível
que a escada surja como simples evolução da rede. Afinal, há pouco tempo, a
própria ideia da Bolsa-Escola era repudiada, tida como política
compensatória. Mas há o risco de que a tentação de ficar no mais simples, e
eleitoralmente eficiente, dificulte o salto necessário para transformar a
"rede" em "escada", com uma revolução na educação.
» Cristovam Buarque é professor da Universidade de Brasília e senador pelo
PDT/DF
mais pobres vem crescendo em ritmo maior do que a dos mais ricos. Mas a
realidade mostra que está aumentando a desigualdade no acesso aos serviços
públicos de saúde, educação, habitação, segurança. Mesmo melhorando para os
pobres, estão ainda melhores para os ricos.
Uma criança pobre vai à escola – o que é uma melhora, pois seus pais não iam
–, mas os ricos vão à escola, ficam mais tempo nela, dispõem de equipamentos
modernos, aprendem idiomas, fazem estágio no exterior, fazem pós-graduação –
o que seus pais também não tinham. O mesmo vale para a saúde, para o
conforto na habitação, para o transporte em geral. O resultado é que, mesmo
com menor desigualdade na renda, os pobres enfrentam hoje uma brecha maior
na qualidade de vida, em relação aos ricos.
Isso nos permite uma reflexão sobre o duplo significado de "redução da
pobreza": por um lado, redução nas necessidades essenciais dos pobres,
especialmente comida, por outro, redução no número de pobres. Mesmo
reconhecendo o valor da redução da tragédia em que vivem os pobres, o
propósito deve ser reduzir o número dos que vivem na pobreza, não só a
dimensão da penúria que sofrem.
A primeira opção é obtida pela "rede" de proteção, mantendo os pobres em
situação de pobreza protegida, a segunda é a opção da "escada", oferecida
para que os pobres saltem de uma situação de exclusão para a de inclusão
social. Nosso desafio está em evoluir da necessidade de rede de proteção
para a oferta de uma escada de ascensão.
A única forma de trocar a rede pela escada é retomar o conceito de
Bolsa-Escola. No seu início, a Bolsa-Escola tinha essa perspectiva. Era
Bolsa (uma rede baseada na transferência de renda) e era Escola (uma escada
baseada na educação). O mundo tem cerca de 20 milhões de famílias protegidas
pela rede de proteção do tipo Bolsa-Família, mas elas não têm acesso à
educação de qualidade. A bolsa protege, a escola eleva. Por isso, a mudança
da política de rede para a política de escada deve se basear na garantia de
educação com a mesma qualidade para todos. Só isso vai permitir enfrentar
com seriedade, ética e dignidade o problema da pobreza.
Na semana passada, em dois debates nos EUA – na Universidade do Texas,
Austin, e na Universidade de Harvard, Boston – pude perceber como a idéia da
Bolsa-Escola se espalhou pelo mundo, chamada genericamente de programas de
Transferência Condicionada de Renda. É gratificante ver a ideia consolidada
internacionalmente, com resultados positivos e sua origem reconhecida. E, ao
mesmo tempo, saber que o programa tem sido decisivo para a criação de uma
Rede de Proteção Social para atender a população pobre nos diversos países
do continente latino-americano. Todos os apresentadores de diversos países
mostraram resultados positivos na redução da pobreza no continente.
Os seminários nas universidades americanas mostraram que a Bolsa-Escola se
consolidou, mas sofreu mudanças que a descaracterizaram. Essas mudanças se
concentraram na transferência de renda, contentando-se com a busca de uma
rede de proteção, abandonando a busca de uma escada de ascensão. É possível
que a escada surja como simples evolução da rede. Afinal, há pouco tempo, a
própria ideia da Bolsa-Escola era repudiada, tida como política
compensatória. Mas há o risco de que a tentação de ficar no mais simples, e
eleitoralmente eficiente, dificulte o salto necessário para transformar a
"rede" em "escada", com uma revolução na educação.
» Cristovam Buarque é professor da Universidade de Brasília e senador pelo
PDT/DF