A arma carregada

Por: KENNETH MAXWELL

Folha de S. Paulo - Opinião - pág. A2

São Paulo, quinta-feira, 12 de junho de 2008.

ENTRE OS documentos secretos obtidos pelo jornal "Valor" nos termos da Lei de Liberdade de Informações dos EUA, além do telegrama sobre Dilma Rousseff, que discuti na semana passada, há outra mensagem digna de nota: um telex da secretária de Estado Condoleezza Rice à Embaixada dos EUA em Brasília, fornecendo um relato detalhado de seu encontro com José Dirceu em 3 de março de 2005. A intenção era de que todo o texto fosse censurado. No entanto, ele foi liberado na íntegra, inadvertidamente, e está disponível como documento E 144 em www.valoronline.com.br/PDF/20050307Washington.pdf.

Em uma discussão privada, sem a presença de assessores, Dirceu e Rice trataram da Venezuela. "Em resposta ao comentário da secretária de que o Brasil precisa enviar uma mensagem franca ao presidente venezuelano Chávez, Dirceu afirmou que Lula já havia aconselhado Chávez a ser mais cauteloso em sua retórica (dizendo a Chávez que ele estava "brincando com uma arma carregada') e que deveria se concentrar em prioridades econômicas e sociais. Ele acrescentou que o Brasil não acreditava que Chávez estivesse apoiando as Farc".

Bem, nesta semana, Chávez, tardiamente, decidiu acatar o conselho de Lula. Isso aconteceu provavelmente como resultado da discreta ameaça da Colômbia quanto à liberação dos detalhes completos de outro conjunto de documentos secretos: aqueles que foram encontrados em laptops das Farc depois que a Colômbia atacou e matou Raúl Reyes, um dos comandantes da organização, em uma incursão aérea e de comandos ao território equatoriano, em abril. Não parece haver dúvida de que as informações obtidas pelos colombianos nesses laptops sobre o apoio financeiro e militar da Venezuela às Farc são corretas, a despeito das continuadas negativas venezuelanas.

Mas uma coisa fica clara: nesta semana, Chávez recuou dramaticamente de seu papel como partidário político proeminente da idéia de que as Farc deveriam ser reconhecidas como força legítima. Em resposta à queda de diversos comandantes das Farc e à morte de seu veterano líder Maruel Marulanda, bem como à captura, por tropas colombianas e em território da Colômbia, de um oficial da guarda nacional venezuelana que carregava 40 mil cartuchos de fuzis de assalto AK-47 destinados às Farc, Chávez diz agora que as Farc deveriam abandonar a guerrilha.

A posição menos beligerante de Chávez oferece o potencial de um resultado diplomático muito positivo: a libertação dos reféns que sofrem há tanto tempo nas mãos das Farc, entre os quais Ingrid Betancourt. É uma esperança.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas na Folha de São Paulo. Folha Opinião

Tradução de PAULO MIGLIACCI